Airton entendia a importância adotada para a morte. Sabia que as pessoas atribuiriam suas maiores glórias em seus momento derradeiro. Porém, perturbava-o saber que todos tinham uma ideia fantasiosa de que sua morte teria um Q de heroísmo e, provavelmente, ninguém teria essa oportunidade. Não podia aceitar isso. As pessoas deixariam de ser heroínas em vida para o serem em seu leito de morte. Não, tinha que fazer alguma coisa.
- Tente não falar, Alberto. Poupe suas forças! - Implorava Michele aos soluços.
- Por favor, escutem, tenho coisas importantes a dizer - dizia Airton, fingindo-se Alberto - Você, Michele... Nunca vi pessoa com tamanho senso de justiça. Apenas peca ao julgar aos outros, porém, sei que se julga com tamanha severidade. Tire proveito dessa qualidade, largue a advocacia e seja juíza. Mude o mundo assim - então Airton fingia perder as forças.
- Por favor, Carolina, você tem um coração tão puro e a paciência dos monges... Cof! - Claro, uma tossida de Airton para disfarçar - Porém, deveria aproveitar seus conhecimentos médicos também para aqueles que não podem... Cof! Pagar justamente pelo trabalho.
- Entendo, Ivo. O farei! - dizia Carolina para Airton, com o peito apertado de angústia...
Essa era a nova vida de Airton, dar motivos para as pessoas serem melhores. Sabia a magnitude que era o momento antes da morte, então, morria. Ou assim parecia. Todo ano Airton se mudava. Em um mês arranjava um bom emprego, e em três era amicíssimo de seus colegas e de seus vizinhos. Em oito já era o conselheiro amoroso de muitos e em doze voltava a morrer.
- Sabe... Se você deixasse de ser... professor universitário e fosse de uma escola pública... Você é genial, Jeffrey!
- Já entendi, Robert. O serei. - Então escorria uma lágrima do rosto de Jeffrey - Sei da sua ligação com os jovens por causa da perda de seu irmão...
- Muito obrigado, amigo... Isso me tranquiliza... - E a voz de Airton se perdia sem forças para mais.
Assim Airton melhorava as atitudes daqueles que se aproximavam dele. Conseguiu auxílios de uma trupe de teatro para orfanatos, enfermeiros para asilos e psicólogos para os grupos de AA. Todos trabalhos voluntários.
Então, um dia, chegou a hora do Airton. Nada de Robert, Guilherme ou Aroldo, apenas do Airton, visto como o vizinho novo que recém se mudara para o interior. Voltava do mercado com um bolo e champanhe que ofereceria em uma festa de confraternização com seus vizinhos. Depois de tantas idas e vindas de hospitais mostrando uma vida fajuta, esqueceu-se da sua. Aquele em que realmente carregava um câncer nunca descoberto em vida. Então caiu na calçada, às 18h27 de um março vazio e sozinho.
Airton não teve direito a versos heróicos ou atenção de seus amigos como teve outras sete vezes. Estava apenas desamparado sobre suas compras e, mais tarde, noticiado como um homem que não teve ninguém além do padre para orar por ele.